Já nada é segredo: as leaks, o big data e a reputação

Nada mais é segredo, ou quase nada. Segredo (e não vou usar o termo privado), em muito pouco tempo, passará apenas a ser aquilo que guardamos para nós, até que um vírus ou um outro qualquer sistema de data mining aceda ao nosso cérebro e faça um simples rastreio do que pensamos e do que sentimos em qualquer momento do nosso dia. Conseguem imaginar a nuvem de palavras mentais que produzimos a cada minuto? Imaginem agora uma “backdoor” uma porta dos fundos para poder entrar no território mais inóspito do nosso ser. Estão preparados?

Quando tudo pode ser convertido em código, em zeros e uns, em que tudo aquilo que fazemos passa a ser monitorizado por alguém, nada mais é igual. A esfera pública de que fala Habermas é cada vez mais um enorme ciberespaço povoado pela partilha e  de conteúdos pessoais que estão algures a ser monitorizados. Estar ligado, estar online, significa aceitar a exposição de que alguém, ou uma qualquer máquina no outro lado do planeta, saiba mais sobre nós do que nós mesmo. Máquinas, softwares que formam padrões, que nos categorizam e que decidem o que nos mostrar, que nos ensinam o que gostar, e o que fazer a seguir. Chamemos-lhe manipulação, chamemos persuasão, chamemos intrusão. Não importa. Regular isto é quase impossível, é massivo, é global, é provavelmente o futuro de uma inteligência coletiva que se forma através das cada vez mais intricadas redes de informação.

Como pessoa, profissional e professor de comunicação, da comunicação das organizações (ou das relações públicas) ou da comunicação empresarial , da gestão de marcas e da reputação olho para este fenómeno por dois prismas antagónicos:

1. Por um lado, fascina-me a capacidade que as marcas, as empresas têm para cada vez mais interagirem com os seus públicos.  Uma conversa que pode, de facto, levar a uma evolução mútua, a novos caminhos e novas oportunidades para públicos e empresas. O potencial para gerir o relacionamento do cliente de forma personalizada, do conhecimento partir para ações que tragam valor para o cliente e que tornem essa relação lucrativa. Quando bem usado, é inegável este potencial. No entanto, é importante que todos os consumidores tenham a percepção de que quando usam o seu “Cartão Continente” para ter promoções, eles estão, na verdade, a “vender” os seus dados que serão usados para futuras ações. Quem diz o Continente, diz o Facebook, o Google ou qualquer outro site que instale cookies no nosso computador. Nem nos damos ao trabalho de ler o que é que esse cookie faz.

2. O outro ponto de vista é um pouco mais aterrador. A verdade é que não temos uma noção concreta do que é que está a ser gravado, monitorizado. Sabemos apenas que é provável que esteja a acontecer. Hoje mais que ontem e amanhã mais do que hoje. Se para uma pessoa comum isto tem algo de perverso, para as organizações ainda mais. As fugas de informação (as leaks) estão apenas a um “click” de distância, basta uma partilha, uma ação planeada, uma ação impulsiva, um ataque pirata e, pronto, lá está toda a vida da organização sob o escrutínio global dos media, das redes sociais, de nós.

 Quando nem os bilionários estão a salvo, quase ninguém está. Talvez a total privacidade seja algo que nem o dinheiro consegue comprar nos dias de hoje.

vladimir-putin-desktop-hd-wallpapers-hdwallwide-comDo ponto de vista da comunicação estratégica, as fugas de informação – as leaks (das wikileaks, ao football leaks, aos Luxleaks, aos Panama Papers) são um aspeto a ter em consideração como situações de potencial crise que podem afetar a reputação de qualquer organização ou pessoa. O que me parece que falta questionar (o meu sentimento quanto às Leaks é profundamente ambivalente) é como é que estas fugas acontecem, quem beneficiam e qual o objetivo por detrás destes atos.

Vladimir Putin é um dos políticos mais lesados pela notícia dos Panama Papers. Se somarmos a isto a provável ausência da equipa russa de atletismo dos Jogos Olímpicos, a “polémica” situação de doping de Sharapova, a perda da influência na FIFA com a queda de Blatter…Algo parece estar a acontecer.

Já alguém se perguntou quantas personalidades de nacionalidade americana apareceram associadas a este escândalo? Tem alguém verdadeiramente questionado, por exemplo, como é que contratos de futebolistas e transferências privadas aparecem em público? Ou vamos apenas aceitar que é apenas divertido e interessante saber. Será que tudo tem mesmo que ser público? Haverá interesses envolvidos?

É tão revoltante ver bilionários a fugir aos impostos, como deveria ser ainda mais revoltante a existência dos off-shores (se eles existem, quem é que que os usava? a classe média?!). Mais, é ilegal? Imoral é. Como será também importante questionar a imoralidade do nosso próprio mundo em que um jogador de futebol ganha mais que um médico, ou um bombeiro que arrisca a vida para salvar os outros.

Que fique claro que não procuro sequer defender o indefensável. O que pretendo afirmar é que não devemos olhar para estes fenómenos de forma inocente e devemos observar a forma como as diferentes instituições, organizações e personalidades o vão gerir. Recomendo ter um olhar global e atento sobre o que vai acontecendo.

Por último, tenho dificuldade em aceitar, porque tenho lido, que os Panama Papers se tratam do verdadeiro jornalismo de investigação, o agora “data journalism”. Tenho dúvidas. Tenho muitas dúvidas.

 

Imagem: http://www.hdwallwide.com/

 

 

 

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